22 de novembro de 2014

ENADE DE LETRAS - DOMINGO, 23.11 2014

Art. 7º A prova do Enade 2014, no componente específico da área de Letras, tomará como referencial os seguintes conteúdos curriculares:

I - Estudos linguísticos:
a) concepções de língua nas diversas teorias linguísticas;
b) níveis de análise da língua;
c) formação histórica da língua portuguesa;
d) gêneros discursivos;
e) variação linguística;
f) aspectos distintivos, linguísticos e extralinguísticos, do português do Brasil;
g) teorias de aquisição da linguagem oral e escrita.

II - Estudos literários:
a) conceitos de literatura e cultura;
b) especificidades da linguagem literária;
c) teorias críticas da Literatura;
d) gêneros literários (da Antiguidade à Contemporaneidade);
e) movimentos literários;
f) formação do cânone e do anticânone;
g) manifestações populares da Literatura;
h)inter-relações da Literatura com outros sistemas culturais e semióticos.

III- Formação profissional do licenciado:
a) teorias e métodos de ensino e aprendizagem de língua e Literatura;
b) tecnologias da informação e da comunicação.

Fonte:
Portaria Inep nº 258, de 02 de junho de 2014.
Publicada no Diário Oficial da União em 04 de junho de 2014.


O Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes – Enade é componente curricular obrigatório dos cursos de graduação do país e tem como objetivo aferir o desempenho dos estudantes em relação aos conteúdos programáticos previstos nas diretrizes curriculares do respectivo curso de graduação, suas habilidades para ajustamento às exigências decorrentes da evolução do conhecimento e suas competências para compreender temas exteriores ao âmbito específico de sua profissão, ligados à realidade brasileira e mundial e a outras áreas do conhecimento.

Para atender a este objetivo, a prova do Exame é constituída de duas partes:
- Formação Geral (FG): composta de 10 questões.
- Componentes Específicos (CE): composta de 30 questões, sendo 27 de múltipla escolha e 3 discursivas.



O Enade 2014 será realizado no dia 23 de novembro,
com início às 13 (treze) horas do horário oficial de Brasília.

Veja também o MANUAL DO ESTUDANTE DO ENADE em:




14 de novembro de 2014

O ULTRAFUTURO

Com análises de Marcondes Calazans e Jefferson Evânio sobre texto de VCA

          O “ultrafuturo” é um termo cunhado por VCA, no final de 2014, em um de seus artigos sobre poesia absoluta (Poesia além da mimética), esta que, na opinião dele, é atemporal. O ultrafuturismo, divergente do futurismo de Marinetti, não nega apenas o passado, mas vale-se dele para construir um ponto cardeal, ainda que oposto, sobretudo transpassador de tempos.
O futurismo era um presente que apenas apontava para o futuro, encantado com a velocidade das máquinas, em 1909. Pouco mais de um século distantes de nós, os seguidores do italiano Filippo Tommaso Marinetti foram ultrapassados exatamente pela máquina que os encantou, em sua última versão, o computador. Portanto, urgia que se lançasse uma semente bem mais longe, onde as engrenagens industriais não pudessem chegar, no indecifrável e sempre profícuo solo da mente humana. Como se sabe, existe uma capacidade infinita de possibilidades linguísticas a serem estudadas sobre o pensamento e suas formas inusitadas de “escrever” o mundo. É nesse lugar que se encaixará o ultrafuturismo de Vital Corrêa de Araújo. Uma linguagem carregada ao extremo de “ultrassentidos,” desconstrução permanente dos sintagmas verbais. Como ele mesmo afirma, é o “que virá do por vir vindo.”
 Com certeza, estamos falando de uma nova revolução da palavra e isso promove uma antecipação anacrônica (no sentido de contrariar o que é cronológico) do pensamento contemporâneo. É como se pudéssemos provar do futuro bem antes que ele nos encontre. O tempo que há de vir, talvez chegue daqui a cinco décadas, mas podemos dizer que ele já se pode acessar no plano da linguagem, obscura para uns, mas disponível para poucos, em forma de poesia absoluta.  (Admmauro GommesPalmares, PE, 11.11.14)




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POESIA ALÉM DA MIMÉTICA
Vital Corrêa de Araújo

            Têm sido extremamente válidas e sobremaneira significativas para mim as contribuições teóricas e as visões práticas expendidas, acerca do que seja ou possa ser poesia absoluta (no sentido de não ser relativa ao passado, com a marca vencida), dos professores da FAMASUL – Palmares: Admmauro Gommes, Sylvia Beltrão, João Constantino, Márcia Maria, Marcondes Torres Calazans, Ricardo Guerra e Romilda Andrade, entre outros, que se estão debruçando sobre essa avançada “modalidade de rima”, concorde com o tempo atual (o século XXI).
            A obra (de arte) poética deve refletir expressamente a experiência do tempo, revestir-se ou dar forma a um estilo da época em devir (em substância e não en passant). Estilo epocal (atual), que, por sua vez, reflita o mundo da atualidade a que pertença o ser. Ir ao devir e não viver do já ido. Pensar (e não passar) o tempo, não ser só passado pelo tempo. Viver e “fazer” a arte da palavra, in casu, que contenha e contemple esse tempo (hoje, agora) e vise ultrapassá-lo... e nunca regressá-lo.
            Daí, a poesia – que reflita o ser em devir – repudiar o estado mero de vivências pessoais (como pregava Dilthey, em Poesia e vida) e expressar a intuição do sendo e do será objetivamente (não o eu empírico mas a metamorfose do mundo). O imaginário devir, não o imaginário devém.
            Toda obra de arte consequente (de Rilke a Picasso, de Murilo Mendes a Kandinski, de CDA a Matisse) deve ser capaz de poder vencer o tempo, ultrapassá-lo, e nunca se limitar a comtemplar o umbigo do que passou. Isto é, despojar-se das meras e impassíveis realidades cotidianas para transcender as substancialidades fixas.
            Ao poeta absoluto (esse tipo de deus da nova palavra) cabe o milagre da transubstancialização (mais do que mera transubstancialidade) da palavra em ato de ação poética, que modifique ou contribua para transformar a realidade exterior, a partir da publicação do íntimo (do tempo).
            É essa ação espiritual a causa da poesia (nas duas acepções do termo causa: bandeira e razão. O ato poético (não relativo) absoluto, isto é, quando autêntico e transfigurador, cria o seu próprio corpo (forma), ativa o porvir e não é passivo dos débitos do passado que se arraste (soneticalmente ultrapassado). Não vive o poema absoluto do “ultrapassado”, porém se alimenta do ultrafuturo. É o poema (a forma) talhado à medida do homem de hoje. E não o homem já passado (ou estragado) de tempo vencido.
            A poesia elementar (passada) representa, descreve, denota algo, enquanto que o canto absoluto transfigura tal representação, tal mimética.
            Ao impor transfiguração ao ser das coisas (do homem, dos objetos, da sociedade), a poesia absoluta adquire, ativa-se, reverte-se de significado espiritual (e não de mero sentido passivo), manifestando a substância desse ser em ação (no ato poético absoluto).
            A coisa a que dê forma (quaisquer que sejam a coisa e a forma, nunca forma fixa – e deletéria) deve significar, ou melhor, ser significativa de algo diferente (e não o mesmo – de sempre, do passado), sendo ao mesmo tempo e simultaneamente sinal e coisa. É a impregnação de um sentido além que conceda expressividade (algo mais do que o sentido contenha ou abarque).
            Eis o famigerado sentido do poema absoluto. Um sentido nunca imóvel, fixo, definitivo, vencido. Mas sentido em devir. Devendo, não devido (ou nos devidos termos burocráticos do poema relativo ao passado que vive vegetativamente até hoje). Não sentido dado, porém sempre construído, em conjunto, pelo poeta e seu leitor. Nunca um sentido dado de todo, portanto, mas um além-sentido. Que transporte em si – esse ultrassentido – a experiência viva, vital do tempo e assim universalize e atualize o espírito humano em transporte espaciotemporal. Só via Poesia Absoluta (nova forma nova) é possível manifestar-se a substância da época (revolucionária tecnologicamente) que vivemos.

Maritain
            Jacques Maritain (e Raíssa), em Situação da poesia, dizia certeiramente que a arte deve estar sempre apontada para o eterno e não datada.
            Em época de tantos sucessos, a poesia não pode ponderar o passado e tratar do que sucedeu, mas ultrapassar o futuro, pela veia do imaginário (ou via da “imaginaria”), e dizer, conotar, expressar o que sucederá (o que virá do por vir vindo).
            Poesia que não só fulgure o ser real, como também o possível de sê-lo.

            Resumo: Si le monde etait claire, l’art ne serais pas. (Albert Camus). 


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ULTRAFUTURO E ULTRAFUTURALISMO
Marcondes Torres Calazans

Aqui, por sua vez irei me arriscar estabelecer relacionalidade entre o termo cunhado por Vital Corrêa “Ultrafuro”, à expressão “Ultrafuturalismo”, usado por Friedrich Nietzsche quando profeticamente saudou a Europa em fins do século XIX, predizendo para a humanidade uma era de conflitos que diria sim ao animal bárbaro, ou mesmo selvagem, que existe dentro de nós, o qual nasceria em seu estado embrionário no século XIX, se projetando no século XX, e, se consolidando no século XXI.
O termo apontado pelo filósofo Nietzsche assinala para uma consequência óbvia de conflito gerada pelo que se convencionava chamar de futuro inevitável da humanidade caracterizada por gastos elevados na fabricação de armas e pela transformação das mortes em subproduto da indústria em grande escala.
A Europa estava em pleno auge de sua vitalidade criadora, com Sigmund Freud mostrando todo um universo que existe além da razão; Karl Marx explicando cientificamente o capitalismo a ponto de demoli-lo, a partir da denúncia do Estado como produto e instrumento de controle da classe dominante, e Van Goghe, através de sua arte atormentada, reclamando uma sociedade mais humana.
Em seu livro “As palavras e as coisas”, Michel Foucault para entrar no campo das terminologias, apresenta-nos a expressão “similitudes" que, para ele, é a escrita das coisas, e o ser da linguagem.
No termo, ele questiona sobre as assimilações perguntando e respondendo ao mesmo tempo:
 “a partir de qual a priori histórico foi possível definir o grande tabuleiro das identidades distintas que se estabeleceu sobre o fundo confuso, indefinido, sem fisionomia e como que indiferente, das diferenças? Daquilo que, para uma cultura é ao mesmo tempo interior e estranho, a ser, portanto excluído (para conjurar-lhe o perigo interior), encerrando-o, porém (para reduzir-lhe a alteridade); a história da ordem das coisas seria a história do Mesmo — daquilo que, para uma cultura, é ao mesmo tempo disperso e aparentado, a ser, portanto distinguido por marcas e recolhido em identidades”. (FOUCAULT, São Paulo, 2000)

Considerando o termo acima, podemos concluir que o “Ultrafuturo” de Vital Corrêa é o “presente das coisas presentes”, e o Ultrafuturalismo de Friedrich Nietzsche é o “presente das coisas futuras”, ou seja, tudo se resume no agora.
Os códigos fundamentais de uma cultura — aqueles que regem sua linguagem, seus esquemas perceptivos, suas trocas, suas técnicas, seus valores, a hierarquia de suas práticas — fixam, logo de entrada, para cada homem, as ordens empíricas com as quais terá de lidar e nas quais se há de encontrar.
Talvez seja isso...


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TRANSMUTAR OS VALORES E ELEVAR A POTÊNCIA DE AGIR

Jefferson Evânio (História/FAMASUL)

Dois termos e um problema incitam a reflexão sobre esta espécie de “encantamento’’ e/ou elevação poética do pensamento do Devir. Talvez esta seja uma forma de revelação do Sein hiddegeriano, ocultado há séculos pelas “nuvens escuras’’ de nossa “natureza agressiva’’ (Freud), nosso “animal selvagem’’ (Nietzsche) de natureza egoísta (Kant). Romper com o pensamento de um campo de experiência fundado no Idealismo platônico-aristotélico, cristalizado pela cristandade e seus pensadores (o grande nome aqui é Tomás de Aquino. Este, por sua vez, uma espécie de transfigurador da filosofia em arte escolástica, que a legitima, que a oferece o suporte teórico que a teologia necessita para ter cor), de fato, é um desafio, desafio aliás já aceito por pensadores de “agora’’ – o quanto o pensamento de Heráclito, Nietzsche, Spinoza, Shopenhauer, parece fundar toda esta transmutação da linguagem.
A transmutação de valores, tema relevante na filosofia a golpes de martelo de Nietzsche, indica um meio (forma), único caminho possível de vencer o que denomina de “advento do niilismo’’. Este nihil que percorre todas as células do exato oposto do Super-homemn nietzschiano, afundou em águas gélidas as possibilidades de Aurora, criou entre as temporalidades uma espécie de “mortificação do devir’’, sacralizou um recorte imoral do passado, fundando no Ser e em seu presente as profundas rupturas com a criatividade humana. 
Para tal efeito, recordando o grande Spinoza, resta-nos tão somente saber como? Spinoza responde decifrando aquilo que move nossas ações, o que chama de “potência de agir’’. O pensamento imbricado na ação, a energia que nos torna estrelas, brilhamos agora, vivos, não depois. A vida em Spinoza é local de inscrição da reflexão do espírito humano, e manifestação de sua energia vital através dos movimentos do corpo. Então, somos livres! E a angústia definida por Jean Paul Sartre nos acompanhará sempre. E isso é uma dádiva e não um problema! Espíritos livres e angustiantes, negadores da poética passada – e sacralizadora do outrora -, buscam romper com o que Halévy definiu tão bem com duas expressões: “tijolos elementares imutáveis’’ que são defendidos até a morte pela “necessidade psicótica pela rigidez’’. Necessidade que teme o indecifrável, que alimenta a forma do pensar cartesiano e nega toda a ruptura.
Pois bem, sendo a transmutação e a potência de agir os fundamentos últimos já apontados por Nietzsche e Spinoza para uma reconfiguração do pensar o homem e sua experiência “trágica’’ – ou seríamos capazes de discordar de Freud ao apontar as causas do sofrer humano; “a prepotência da natureza’’, a fragilidade dos corpos e a incapacidade dos códigos que regulam as nossas condutas?’’ Este terceiro ponto nos interessa bastante. Pois somos culpados pela nossa desgraça. A “poesia,’’ assim como a Arte, tem sido por muito tempo, como apontou Umberto Eco, um espaço fictício para a fuga da Angst, a arte é assim espaço imaginário onde só lá e em lugar nenhum se encontra uma Verdade e harmonia que o tempo e a realidade objetiva enterrou. Zygmunt Baumam nos convida a refletir ao afirmar que “banidas da realidade, as verdades só podem esperar encontrar sua segunda morada, exilada na morada da arte’’.
Não sendo permitido escrever mais, pois não consigo expressar neste espaço delimitado que me forçou a recortar trechos de meu escrito para a aceitação de sua postagem pela máquina! A palavra que gostaria de salientar e a ÉTICA. Problematização da transmutação de valores, espécie de “Super –eu” freudiano da potência do agir humano.
Transmutar os valores implica à elevação da potência de agir Spinozana. Implica em rasgar o véu da concepção escatológica de tempo/espaço, constitui-se em um novo modus operandi do agir humano. Eeste, por sua vez, imbricado no devir. Sendo o termo “ultrafuturo’’ compreendido aqui como espaço (forma) de desconstrução de uma temporalidade objetal, sentimental, ideológica e cultural dada; imutável, sólida e permanente, resta-me considerar a preocupação ética que advém de projeto realmente consistente. 
Pressuponho ser a preocupação ética essa espécie de “sombra psicológica’’, talvez em sua forma mais primitiva sob a supervisão e/ou vigilância do “Super-eu’’ freudiano, o elemento fundamental a toda transfiguração da relação entre Ser e Tempo. Aqui, nossa reflexão tem um alvo que ultrapassa a primeira pessoa, o Outro. O universo do outro – não sua relação com o tempo -, mas, contudo, o conteúdo ideativo de sua condição humana. Até onde nos é permitido compreender o “ultrafuturo,’’ aplicado na conceituação de uma “Poesia Absoluta’’, entendemos o fundamento de sua solidez, sobretudo, quando se propõe a indagar uma poesia que da mesma forma consideramos fria, presa em seus sentidos cristalizados pelo poder de uma outrora vigiada. Não obstante, a ética, compreendida em nosso tempo (e essa nada tem a ver com seu “mito fundador,’’ isto é, o pensamento grego, onde a ética encontrou na pessoa de Aristóteles sua mais perfeita tentativa em aliar o comportamento ao Cosmo), como uma inteligência compartilhada em busca da harmonia entre os homens, não pode desprender-se do “ultrafuturo’’, quando este, por sua vez, é transportado para a construção da realidade objetiva. Se esta é sua preocupação, evidentemente.
Se esta forma de arte intervém no plano da concretude humana, seja na relação entre Ser e Tempo, ou na forma como eles devem ser compreendidos, o universo do Outro é local de inscrição de certas categorias que nem o devir pode solapar. Universalizar a ruptura com certos objetos frios, por meio de um “ultrassentido’’ da Arte, pressupõe lembrar ao Outro a preocupação da primeira com a liberdade do segundo. 
Marc Halévy propõe esta reconfiguração da linguagem linear, hierarquizada, unívoca e presa a um passado/presente. Segundo este, nossa forma de representar o mundo deve ser “completada e superada por novas metalinguagens poéticas, metáforas e simbólicas’’. Neste espaço, a ética representada pelo universo do Outro reclama o respeito à vida de estruturas cansadas em ter a “alma de suas culturas’’ invadida pelo espectro de nossos desejos. Aqui, a preocupação em si é a vida, a liberdade que a poesia mais intelectiva (ultrafuturista), deve conceber a si mesma e ao espaço do não-dito, no plano da concretude, isto é, quando esta ultrapassa os espaços da “poesia imagética’’ e se propõe a problematizar a complexidade do real. “Vamos ao fundo do desconhecido para encontrar o novo’’ como escrevia Baudelaire. Afinal, como afirmou Nietzsche, “o que importa é a eterna vivacidade’’.
Talvez seja a ética o fundamento último do agir “ultrafuturo’’. Na poesia útil à vida, e à realidade objetiva, o que se propõem a ser o seu elemento mais viscoso e necessário.


Leia este texto também em:



13 de novembro de 2014

MANOEL DE BARROS

OS DESLIMITES DA PALAVRA

Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas.
Estou atravessando um período de árvore.

(BARROS, Manoel de. O Livro das Ignorãças - 6ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 1998)

5 de novembro de 2014

O OLHAR DO POETA

Roberto de Queiroz* 
De acordo com o poeta Manoel de Barros, é possível tirar poesia até do esgoto. Augusto dos Anjos, nesse contexto, palavreia de maneira similar. Segundo ele, o beijo é a véspera do escarro.


“O que se depreende [...] [dessa expressão] não é o sentido frio do dicionário da palavra escarro, mas a grande verdade da vida e que existem pessoas que beijam outras com um beijo traiçoeiro, como Judas, que beijou Cristo para, em seguida, entregá-lo à prisão. [...] Para retratar essa realidade, o poeta diz que o beijo (a parte boa) antecede a parte má (o escarro). Ninguém perguntou, mas ele responde. É assim o mundo visto pela ótica pessimista de quem escreve, embora seja bem mais conhecido dizer que o poeta só fala de amor. O certo é que a tradição não liga muito a ideia de esgoto à poesia” (Admmauro Gommes, Intradução poética).

São lúcidos os comentários acima. São perfeitamente possíveis tanto haver poesia no esgoto quanto à proximidade entre beijo e escarro. Não no sentido literal (denotativo), mas no sentido literário (conotativo) da palavra. O beijo de Judas ilustra muito bem a linha de raciocínio de Admmauro. Afinal, “o que realmente caracteriza a poesia é o fingimento. Observemos, por exemplo, a primeira estrofe do poema Autopsicografia, de Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor./ Finge tão completamente/ que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente.” Esses dois últimos versos revelam claramente que o poeta não anula a existência de uma dor real, mas a dor fingida, a dor que figura no poema, assume uma característica própria e atua com mais intensidade que a dor real” (1).
De resto, vale salientar que certos autores definem a poesia como ficção: “Poeta, escreveu Jonson, grande dramaturgo inglês, contemporâneo de Shakespeare e um dos homens mais cultos do seu tempo, é, não aquele que escreve com métrica, mas o que finge e forma uma fábula, pois fábula e ficção são, por assim dizer, a forma e a alma de toda obra poética ou poema.” Mas, conforme assegura Manuel Bandeira, “é evidente que a poesia pode nascer também em pleno foco da consciência, e portanto atuar de maneira claramente apreensível. [...] Afinal em poesia tudo é relativo: a poesia não existe em si: será uma relação entre o mundo interior do poeta, com a sua sensibilidade, a sua cultura, as suas vivências, e o mundo interior daquele que o lê” (2).

P. S. – Citações minhas: (1) em “O poeta e a poesia”; (2) em “Meus versos livres e soltos”.
(Artigo publicado no jornal Gazeta do Oeste, Mossoró/RN, 30/10/2014, Opinião, p. 2)

* Professor e escritor. Autor de “Leitura e escritura na escola: ensino e aprendizagem”, Livro Rápido, 2013, entre outros. 



29 de outubro de 2014

INSPIRAÇÃO

OS POETAS UTILIZAM A INSPIRAÇÃO OU O DOMÍNIO DA TÉCNICA?

SARAMAGO: EU NÃO SEI O QUE É A INSPIRAÇÃO
Eu não sei o que é a inspiração. (...) imaginemos que eu estou a pensar determinado tema e vou andando, no desenvolvimento do raciocínio sobre esse tema, até chegar a uma certa conclusão. Isto pode ser descrito, posso descrever os diversos passos desse trajeto, mas também pode acontecer que a razão, em certos momentos, avance por saltos; ela pode, sem deixar de ser razão, avançar tão rapidamente que eu não me aperceba disso, ou só me aperceba quando ela tiver chegado ao ponto a que, em circunstâncias diferentes, só chegaria depois de ter passado por todas essas fases. 
SARAMAGO, José. In:Diálogos com José Saramago. 
Disponível em: http://www.citador.pt/pensar.php?op=10&refid=200905051500.

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Texto transcrito de um e-mail:


Admmauro Gommes
Caro Poeta Admmauro Gommes, começamos este poema via internet, mas não o findamos. Vamos fazê-lo juntos? Abraços. Riccardo Guerra.

Poema quase pronto [Admmauro e Riccardo] Via INTERNET.
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Um dia, recebi umas fotos enviadas por Riccardo Guerra (RC) de sua terra natal, Jaqueira. Querendo homenageá-lo pelo grande amigo que sempre foi e é, compus os versos seguintes. Depois ele me respondeu. A minha estrofe não tem nada de inspiração. Apenas olhei as fotos e como quem descreve apenas o que vê, arrumei as rimas. A parte dele (RG) deve ser fruto da inspiração. Eu pelo menos não vejo diferença na qualidade dos textos e nem preciso “dela”.


AG - Só na feira de Jaqueira
há um mundo cheio de graça:
carne de sol, macaxeira
e manteiga de garrafa. 
Lá a vida é verdadeira
e a tradição não passa
tem fruta de todo fruto
e um caminhão de matuto
brindando a velha cachaça.

RG - Só na feira de jaqueira
Tem violeiros em desafio
Que emociona e dá arrepio
Em ouvi-los improvisar
Tem vivente de todo tipo
Que acabou de chegar.
A maior parte vem a pé
Ou num burrico qualquer
o importante é feirar. 

Riccardo Guerra
Embora Riccardo Guerra diga: “Preciso da minha "amiga inspiração para escrever”, eu afirmo que só necessito da vontade e do conhecimento/técnica para fazer um poema. Aliás, bem disse Saramago: “Eu não sei o que é a inspiração.”
“Essa tal da inspiração, mesmo sem existir, me causa mais confusão.” - Admmauro Gommes (AG).
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SOBRE A INSPIRAÇÃO, ESTÃO DIZENDO QUE...


1. “...pois é quando estamos com a alma calma, em sossego e "Desconfiar da inspiração" porque é a motivação e até a intuição com domínio da técnica que nos faz produzir um poema.” Josiette Silva. 3º período/Letras, 30 de abril de 2012.


2. “...  para se fazer um bom poema e, este se transformar em poesia, o poeta tem que ter INSPIRAÇÃO, com todas a letras e os sentidos em maiúsculas. – Ricardo Guerra - Jaqueira Histórica, 1 de maio de 2012.


3. “Inspiração é o motivo pelo qual muitos acreditam escrever, mas na realidade quem escreve bem tem o domínio da técnica.” – Carla Cristina. 3º Período de letras, 1 de maio de 2012.


4. “Sem a Técnica é impossível dizer coisa com coisa. A Inspiração praticamente não existe, é abstrata, apenas faz parte da Técnica.” Felipe Silva. 1° período de Letras, 1 de maio de 2012.


5. “Quando consideramos técnica dentro da Arte, não é necessariamente um aprendizado colhido na escola, no meio acadêmico, mas uma teoria vivenciada na prática. E teoria todo artista possui, naturalmente, ao lado da técnica que se desenvolveu com o tempo.” - Admmauro Gommes


6. “O poeta é inspiração, a técnica vem a embelezar toda a estrutura, mas de nada seria texto poético sem a inspiração do poeta.” Diego Gomes. 5° Período/Letras - FAMASUL. 7 de maio de 2012


7. “Para começo de conversa, acho a palavra “técnica” um termo muito “concreto” para algo tão subjetivo que é a poesia. A toda imagem poética, a todo poema confere um passado. Isto é, a experiência que a poesia traz consigo independe de técnica.” Karoline Serpa. 8 de maio de 2012



8. “A primeira resposta dada à pergunta “Como você imagina que o poeta faça sua poesia?’’ que havia sido ‘’Tem inspiração’’. Ficou claro, portanto, que, para se fazer poesia, é preciso saber trabalhar com a linguagem, saber explorá-la em todos os níveis: o fonético, o morfológico, o sintático e o semântico.”  - Dieli Vesaro Palma (PUC-SP) e Heloísa Cerri Ramos (Experimental da Lapa/SP).





E você, o que diz?


Participe também deste debate


INSPIRAÇÃO: UM FRASH NA CABEÇA DOS SÁBIOS
A inspiração faz muito mais parte da técnica, mas a técnica não tem nada a ver com a inspiração pois a técnica é o ato de saber se expressar diante da inspiração. a Inspiração é apenas um frash rápido na cabeça dos Sábios. Felipe/1° período de Letras
INSPIRAÇÃO VEM ÂMAGO DE CADA SER
Sempre achei que inspiração é algo intrínseco, do âmago de cada ser pensante, ela vem dos nossos mais profundos sentimentos. Prof. Riccardo Guerra- Jaqueira

PODE-SE TIRAR POESIA ATÉ DO ESGOTO
“O que constrói a radiância de um verso nem é a presença do sol, nem é a presença de uma alma alegre, a radiância de um verso vem das radiâncias letrais. Pode-se dar alegria ao esgoto.” - BARROS, Manoel de. In: Suplemento. l997, nº 21, Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais.

INSPIRAÇÃO OU AQUECIMENTO?
“Devemos escrever mais friamente. Desconfiar dessa espécie de aquecimento, que chamam inspiração, e no qual geralmente se produz mais emoção nervosa que força muscular.” - FLAUBERT, Gustave (Apud. NIETO, Ramón. O Ofício de escrever. São Paulo, Angra, 2001).

INSPIRAÇÃO E TRANSPIRAÇÃO
“Talento é 1% inspiração e 99% transpiração.”EDISON ,Thomas. Disponível em: http://pensador.uol.com.br/frase/MTQ4NA/ Acesso: 31.4.12


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27 de outubro de 2014

SUGESTÃO DE LEITURA

Além dos livros indicados pelos professores de cada disciplina, sugiro que o profissional formado em Letras tenha lido, ao final do curso, as obras abaixo relacionadas. (Admmauro Gommes)




           PROSADORES
1. Pero Vaz de Caminha - A Carta
2. Joaquim Manuel de Macedo - A Moreninha
3. José de Alencar - Iracema
4. Machado de Assis - Dom Casmurro
5. Aluísio Azevedo - O Cortiço
6. Graciliano Ramos - Vidas Secas
7. Dias Gomes - O Pagador de Promessas
8. Franz Kafka - A Metamorfose
9. Cervantes - Dom Quixote
10. Fernando Sabino (crônicas)

           POETAS
1. Gregório de Matos
2. Tomás Antonio Gonzaga
3. Castro Alves
4. Olavo Bilac
5. Augusto dos Anjos
6. Ascenso Ferreira
7. Carlos Drummond de Andrade
8. Manuel Bandeira
9. Murilo Mendes
          10. Vital Corrêa de Araújo

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Professor:
Confesso que quando comecei o curso de letras odiei essa de história de ler, mas hoje admito que estou gostando mais, tenho ideias mais rápidas. Parabéns, para o senhor em ter me mostrado a importância da leitura para meu crescimento.
Romélia Milânia - 1º Período de Letras/FAMASUL (2014.2)


24 de outubro de 2014

VITAL CORRÊA MAIS UMA VEZ NA FAMASUL

O POETA VITAL CORRÊA DE ARAÚJO ESTEVE NA FAMASUL MAIS UMA VEZ (23.10.14). Ele participou de uma palestra sobre a literatura contemporânea no primeiro período de Letras. Estiveram presentes Romilda Andrade, Josenildo Barros, Sylvia Beltrão, Genyff Farias, Marry Francyelle, Ricardo Guerra e Marcondes Calazans. Este veio acompanhado de vários universitários de História. O encontro foi promovido e mediado pelo professor Admmauro Gommes. 

















I Período de Letras da FAMASUL (2014.2)

Ler Vital será um grande desafio, pois cada vez mais ele se fecha em um mundo impenetrável de obscura linguagem. (Admmauro Gommes)

Nesse jogo, Vital vem conquistando a todos, e nós, como leitores sentimos cada vez mais a motivação em desvendá-lo, ou melhor: derrotá-lo! (Sylvia de Azevedo Beltrão)

A poesia dele é viva e renovadora, mediante as metáforas cerradas que instigam o cérebro a trabalhar com mais profundidade. (Osani Severina)

Para VCA, a linguagem poética já não tem que imitar a natureza ou explicá-la como a maioria do discurso prosaico ou descrição realista, mas fazer surgir uma realidade nova. (Gabriela Raianne da Silva)

Vital Corrêa busca derrubar vocábulos e significados, transformando suas obras em um conjunto de versos intraduzíveis. Ele defende uma poesia complexa, que leve os leitores a pensar, a “multiplicar neurônios.” (Farlla Caroline Rosendo da Silva)

Qualquer determinismo ou prévio cálculo poético Vital isola. Para ele, não há sentido no finito, ou finito sentido. (Cláudio Veras)

Ricos em metáforas são os poemas de VCA. Ele de fato faz uso exorbitante da metáfora, alguns deles, às vezes, soam como uma denúncia, confissão, apelo, desejo e por que não dizer, uma sublime utopia. (Marta Roberta Ramos da Silva)

Conhecer Vital Corrêa de Araújo é adentrar num mundo oculto, ativar a mente, vomitar os neurônios e engolir algo estranho, arranhento. (Rozineide da Silva Lopes)

As metáforas utilizadas com muita técnica e rigores intrigantes de VCA me causaram uma estranheza. Uma linguagem bastante aguçada, abstrata, densa e, apesar dos poemas serem de versos livres, estamos perante uma obra clássica. (Humberto da Silva Cândido)

Vital afirmou que a expressão através de palavras não pode ser clara, pois assim perde a graça porque o leitor descobre rápido o segredo guardado dentro do texto. (Douglas Henrique Tavares Rocha)

Assim, compreende-se que para VCA, a poesia tem como objetivo compreender o ser, entretanto, homens e mulheres são seres inacabados. (Maria Jailma Galdino de Moura)

Surge-nos a figura ímpar de Vital Corrêa de Araújo, cuja produção literária, poética e prosaica, (principalmente, sua produção poética) corresponde à não-pedagogização, à antioficialização, e à produção anticanônica,  fundamentada no conflito entre dessacralização e ressacralização,  dessublimação e ressublimação das tendências  poéticas neoposmodernas. (João Constantino Gomes Ferreira Neto)

Como entender, por exemplo, um pensamento desconcertante na medida em que VCA, ao derrubar a compreensão da realidade ao “pé da letra”, rompe com os “ideais” da modernidade, colocando-se na contramão de muitos valores que consideramos conquistas imutáveis?  (Marcondes Calazans)

Reajamos, como o pessoal de Letras da FAMASUL está fazendo! (Vital Corrêa de Araújo)