18 de setembro de 2014

TALENTO E GENIALIDADE


"Talento é paciência sem fim"
 (Gustave Flaubert)

O talento e a genialidade não são frutos do acaso, mas de uma disciplina rigorosa e de muito esforço, contando com a permanente busca do alvo desejado, do sublime e do surpreendente. Isso nasce de um “estalo”, algo que simboliza para uns a inspiração, para outros, puro domínio da técnica. Mas, afinal, que elementos se alinham para o surgimento de um poema? Procurando responder a esta pergunta, a Psicologia Cognitiva destaca a existência do insight como situação que desencadeia a descoberta súbita da resposta a um problema e que reorganiza o campo perceptivo, podendo ser analisado como elemento responsável pela criatividade, rompendo as expectativas. Entende-se, portanto, que toda arte precisa da provocação do artista, que vem ou de seu mundo interior ou exterior. A resposta surge em forma de texto literário, no caso da literatura. - Admmauro Gommes



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17 de setembro de 2014

A FORMAÇÃO DO LEITOR LITERÁRIO NA ESCOLA

Roberto de Queiroz/Ipojuca (PE)
Formado em Letras/FAMASUL

A escritora Tatiana Belinky, falando sobre como estimular o prazer da leitura na escola, disse o seguinte numa entrevista: “Há coisas que não se manda fazer, elas
Roberto de Queiroz
acontecem. E a leitura é uma delas. O leitor é livre. Você lê para você mesmo, para seu divertimento, para sua emoção, não tem obrigação de coisa nenhuma. Você começa a ler e vai logo perceber que é bom. Uma história bem contada pode fazer alguém chorar ou rir, isto é, pode prender o leitor” (Na ponta do lápis, nº 12, dez. 2009). Mas como fica a liberdade do leitor iniciante? Como é que alguém pode escolher o que não conhece?

Para Caio Riter, se cada aluno tem a liberdade de ir à biblioteca e escolher o livro a ser lido, ele é o responsável por sua formação leitora. Assim, quando é convidado para apresentar, apresenta “sua visão de leitura, não havendo na sala de aula espaço para a interação com diferentes leitores, em diferentes níveis de leitura, visto que poucos (ou apenas um) terão lido aquele texto, correndo-se o risco, inclusive, de o próprio professor não ter a mínima noção sobre o que trata cada um dos livros lidos por seus alunos” (A formação do leitor literário em casa e na escola, Biruta, 2009).

O escritor italiano Italo Calvino (1923-1985) disse certa vez que “ler é um ato de liberdade, mas para quem já [...] foi formado pela escola como leitor. Ou seja, o espaço escolar é o lugar da experimentação e esta se dá à medida que o aluno é desafiado a ler textos que passaram pelo critério de qualidade do professor e/ou que atendem a algum objetivo, cuja realização se faz necessária”.

Desse modo, a liberdade do leitor iniciante pode ser respeitada “quando a escola, através da obrigatoriedade da leitura e de uma prática metodológica que assegure espaço para a reflexão e para o deleite, forma leitores qualificados. A escola precisa mostrar aos alunos a importância da leitura e o conhecimento dos aspectos que a envolvem, além de apresentar, de forma qualificada, textos [...] cuja leitura, se não realizada na escola, sob o olhar atento e orientador de um professor-leitor, muitas vezes jamais ocorrerá” (Riter, op. cit.).

Em suma, pedir simplesmente que os alunos leiam um texto qualquer, sem a análise criteriosa e sem o planejamento prévio do professor, é coisa que pode parecer aula de leitura a um desavisado, mas, obviamente, não corresponde aos critérios de leitura como conteúdo em sala de aula. Ou seja, defendo a ideia de que a leitura de textos literários na escola pode ser uma leitura sem amarras (uma leitura que seduz e encanta o leitor e induz ao gostar de ler), mas a mediação do professor desempenha um papel fundamental na realização desse processo.

(Artigo publicado no Diário de Pernambuco, 02/09/2014, Opinião, p. A6)

Mais informações sobre o autor deste texto em:


16 de setembro de 2014

Criaart


LENDO UM LIVRO EM QUATRO MINUTOS

EXPERIÊNCIA DE LEITURA NO CURSO DE HISTÓRIA (FAMASUL) - 
Alexandra Rosendo da Silva e Maiara Maria da Silva
Na aula de Leitura e Produção de Textos (12/5/2014), o professor Admmauro Gommes perguntou ao 1°período de História se seria possível ler um livro em apenas quatro minutos. A resposta da turma foi única: Impossível, professor! Logo, os convenceu de que seria possível e, apresentou aos futuros historiadores três tipos de leitura:
A leitura comum é aquela feita habitualmente onde se lê página por página;
A leitura em estudo exige uma maior dedicação do leitor, pois necessita a interpretação das entrelinhas; e
A leitura em diagonal, que é feita quando se tem pouco tempo, dando ênfase aos índices, títulos, subtítulos. Leem-se alguns parágrafos ou frases no início, meio e fim do texto, com a finalidade de encadeamento das ideias. Esta foi a leitura escolhida para ser trabalhada em sala de aula e a obra, Joaquim de Xexéu, escrita por Admmauro Gommes e Antonio de Souza Júnior.
Após se passarem os minutos da leitura, os alunos foram desafiados novamente a escrever um texto em apenas cinco minutos, baseando-se na leitura em diagonal.
Os resultados foram surpreendentes: textos com uma qualidade e quantidade de informações que deixou o professor e os alunos satisfeitos. Então, produzimos durante a aula os textos que seguem:

“O pastor Joaquim foi um homem de grande importância para a cidade de Xexéu, pois fez com que as pessoas acreditassem que Deus é a luz no fim do túnel”. Independente de religiões, todos o admiravam. Ele foi pastor da Assembleia de Deus durante vinte e sete anos e, transformou a vida de muitas pessoas. Sabemos que ser pastor é um chamado do Senhor e ele ficou na cidade tempo suficiente para cumprir sua missão: Evangelizar o povo Xexexense.” Alexandra Rosendo
  
“O livro é uma homenagem ao pastor Joaquim. Relata sua história de vida como homem de Deus e atribui a ele elogios e muita admiração pelo papel que desenvolveu como pastor e pelo seu evangelho com ideal de vida.” -Maiara Silva

Em seguida, Admmauro abriu espaço para que os alunos pudessem opinar sobre a dinâmica realizada. As opiniões foram as seguintes: 

“Achava que não iria ser capaz de produzir um texto em pouco tempo, mas me surpreendi com o meu resultado.” (Aldilene Paula); e “Como a nossa vida é muito corrida, essa prática nos auxilia nas produções textuais.” (Vitória Silva).

Destacamos positivamente nessa dinâmica a curiosidade despertada nos alunos e, o desejo de tornar a prática da leitura constante. Através dessa aula, ficamos a imaginar em que nível de conhecimento podemos chegar, lendo diversos livros em tão pouco tempo.


7 de setembro de 2014

LETRAS - MERCADO DE TRABALHO

VEJA O MERCADO DE TRABALHO EM QUE

OS DIPLOMADOS EM LETRAS PODEM ATUAR




I. ATUAÇÃO NA ÁREA DE MAGISTÉRIO:
Língua e Literaturas de Língua Portuguesa, Linguística, História da literatura, Redação, Produção de textos, Ensino de línguas estrangeiras e Tradução,

II. ASSESSOR DE LÍNGUA PORTUGUESA
As grandes empresas modernas têm uma assessoria para cuidar da comunicação social, da publicação de uma revista ou de um boletim, assim como de cursos de treinamento de funcionários e da redacção correta dos documentos da instituição.

III. ASSISTENTE DE DIRETOR DE PRODUÇÃO
Um campo pouco explorado até hoje e timidamente considerado como campo possível de atuação para diplomados em Letras, é o de assistente de produção nos programas de rádio, de televisão, de cinema, de vídeos e de cd-rons.

IV. REDATOR E REVISOR
Trata-se, evidentemente, de uma fatia ampla, que ultrapassa a necessidade das redações dos jornais. A realidade da informação e da comunicação levou-a aos gabinetes dos ministérios e das grandes empresas assim como às redações das revistas e às salas das editoras e das gráficas.

V. CENSOR FEDERAL
A censura federal é uma área pouco conhecida e de pouca demanda por parte dos diplomados em Letras. Mas foi até agora, curiosamente, uma área de grande consumo social e do maior interesse. (...) É um dos cargos acessíveis a pessoas bem preparadas e tem bons salários. 

VI. EDITORAÇÃO
Neste tipo de trabalho, serão selecionados naturalmente aqueles que tiverem maior vocação para a crítica textual e para a preparação de edições de textos literários nacionais e estrangeiros, havendo ainda um grande campo para a editoração de traduções originadas em textos de literatura estrangeira.

VII. PESQUISA LITERÁRIA
Através destes profissionais pode ser ousado o lançamento de enciclopédias, de coletâneas de textos, de séries críticas em literatura, de textos de cordel, dicionários sobre escritores, dicionários de literatura brasileira, de literatura estrangeira, de linguística, de termos literários, de redação, histórias da literatura, biografias literárias, dicionários de língua portuguesa e de línguas estrangeiras.

VIII. EDIÇÃO DE VÍDEOS E CD-RONS LITERÁRIOS, HISTÓRICO-LITERÁRIOS E LINGUÍSTICOS. 
Entremos agora em outro campo interessante. (...) Dependendo da qualidade do planejamento e da capacidade de execução, verbas federais, estaduais, bancárias, municipais e empresariais, podem abrir uma frente interessante que mobiliza pessoas adestradas e preparadas, para apresentar, com nível cultural, pedagógico e didático a história literária e o ensino da língua materna ou língua estrangeira.

IX. REDAÇÃO PARLAMENTAR
O redator parlamentar é encarregado de elaborar discursos parlamentares, relatórios ligados à atividade legislativa, minutas de indicações, de requerimentos e de pareceres, de pronunciamentos parlamentares ou legislativos em especial. Além do Congresso Nacional, as assembleias legislativas dos Estados e a Câmara dos Vereadores dos municípios oferecem este tipo de concurso e de emprego.

X. PLANEJADORES, COORDENADORES, ORGANIZADORES DE CURSOS E CONGRESSOS, AUTORES E DIRETORES EDITORIAIS
É este um campo muito fértil e requer boa preparação técnica, capacidade de organização, talento, visão e pesquisa. É, certamente, um rendoso mercado de trabalho.

XI. TRADUTOR E INTÉRPRTE
Para atuar com sucesso, pressupõe-se um trabalho montado no conhecimento de duas ou mais línguas, uma segurança de conhecimentos, praticidade para aliar conhecimentos, relações humanas e público, e uma habilidade técnica especial.

XII. CONTADORES DE HISTÓRIAS E DE OUTRAS ATIVIDADES ARTÍSTICAS
Neste sentido, seria muito natural para pessoas formadas em Letras, criar, por exemplo, um grupo voltado para a leitura de textos dramatizados para crianças, adultos e idosos, tipo grupo de contadores de histórias, conectado com outras atividades artísticas.

XIII. BELETRISMO
Durante muito tempo, o homem erudito, das sociedades clássicas e modernas, cultivava a figura do "letrado", do poliglota, do humanista versado nas Belas-Letras, do professor culto que tinha orgulho (...) A tendência predominante do mercado é ter um especialista, alguém versado num ramo: professor numa área de conhecimento, tradutor, intérprete, linguísta, teórico da literatura, historiador literário, semioticista, etc.

XIV - CURSOS DE TREINAMENTO PROFISSIONAL
Além da atuação em fundação de microempresas e no magistério em grupos de preparação para concursos e treinamento, existe paralelamente, outro setor. É aquele que redige, seleciona e prepara os originais das apostilas necessárias ao curso. Isso pode representar uma boa entrada financeira para os que as elaboram.

XV. SECRETARIADO EXECUTIVO
A empresa moderna caracteriza-se em seus quadros pela figura da secretária-executiva, que muitas vezes se transforma em chefe de gabinete do diretor ou do Presidente da empresa. Essa figura pode ser uma secretária com prática em redação oficial, com experiência em redação e experiência administrativa, e sobretudo secretária bilíngue, trilíngue e até em multinacionais mais sofisticadas uma secretária com conhecimentos em 4 línguas. (...) Tudo depende, evidentemente, da empresa, da preparação técnica, da adaptação pessoal e da complexidade do emprego.


Como se vê, além do mercado tradicional do magistério, sempre interessante e acessível, outros caminhos se abrem para os recém-formados de Letras.





Leia o texto na íntegra em:

http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.php?cod=396&cat=Ensaios&vinda=S



2 de setembro de 2014

GUSTAVO MANOEL E O VOTO OBRIGATÓRIO

O FIM DO VOTO OBRIGATÓRIO E O COMEÇO DE UMA POLÍTICA LIMPA

Para o apresentador Gustavo Manoel, a política devia ser voltada para o bem de todos e benefício da sociedade.

Gustavo Manoel
Conhecido pela linha dura em críticas abertas aos setores públicos e desmandos administrativos, o apresentador Gustavo Manoel da Nova Quilombo FM, defendeu hoje (27/8) o fim do voto obrigatório, em seu Programa Microfone Aberto.

Na opinião de Gustavo, o direito de votar aparece mais como uma obrigação, quando quem não comparece às urnas é punido com multas e restrições ao procurar emprego. Mesmo assim, ele não acredita que a obrigatoriedade do voto seja quebrada, pois, os eleitores como não têm motivos para votar, não sendo obrigados, nem sairiam de casa e os candidatos perderiam com isso. “Duvido que esta Lei passe no Brasil,” disse o apresentador.

Desolado, Gustavo Manoel, âncora do Programa Microfone Aberto, declarou que sempre votou em pessoas que lhe decepcionaram. Mesmo assim, ainda espera que nos próximos anos apareça alguém que faça deste país um lugar mais justo e mais fraterno.


“Política devia acontecer de forma limpa, de propostas e esperança para as pessoas. Lamento que, no lugar de política, existe a politicagem, uma distorção da maneira correta de se administrar o bem público. A política devia ser voltada para o bem de todos, para o benefício geral,” disse Gustavo.  



26 de agosto de 2014

GUSTAVO MANOEL DIZ QUE OS CANDIDATOS DA MATA SUL NÃO REPRESENTAM NADA

Sem esperança, a descrença é total para as eleições deste ano.

Gustavo Manoel
O apresentador Gustavo Manoel disse em seu Programa Microfone Aberto, na Rádio Nova Quilombo FM (26/8), em Palmares, que se enoja da política que é feita na Mata Sul de Pernambuco. Segundo ele, os candidatos ao invés de usarem a política para levar benefício à população, usam a população para seus próprios benefícios.

Gustavo considera uma vergonha a atuação de certos políticos que só aparecem de quatro em quatro anos, como agora, que surgem nomes de todas as regiões do Estado trazendo promessas vazias.

“Depois do pleito eleitoral, nós ficamos abandonados, como sempre. Nesta região, principalmente no entorno de Palmares, onde não se tem uma indústria” - disse o apresentador e concluiu: “É hora de todos se conscientizarem e escolher bem o candidato certo, pois ainda existem homens de bem na política. Esses são bem poucos, mas existem. Se os deputados que estão aí se dizem realmente representantes da Mata Sul, então, como a região está abandonada, eles são uns incompetentes.”

O apresentador analisou que as cidades circunvizinhas não têm esperança que possam vir dias melhores através do quadro de lideranças que ora se apresenta, por isso, a descrença é total para as eleições que se aproximam em 5 de outubro deste ano.


24 de agosto de 2014

AFINAL, O QUE É CRÔNICA LITERÁRIA?


Botecos
Luis Fernando Veríssimo


Tinha uma mania: colecionava botecos. Não os frequentava, apenas Era um estudioso. Gostava de descobrir botecos e recomendar para os amigos. Ultimamente, vinha se especializando — um refinamento da sua paixão - no que chamava de botecos asquerosos. Daqueles que nenhum fiscal da Saúde Pública incomoda porque não passa pela porta sem desmaiar.
Seu rosto se iluminava na frente de um boteco asqueroso recém-descoberto. Não resistia e entrava. Depois contava para os amigos.
- Uma glória. Sabe ovo boiando em garrafão com água?
- Repelente, não é?
- As galinhas não os receberiam de volta. A própria mãe! Descrevia o boteco com carinhoso entusiasmo.
- E que moscas. Mas que moscas!
Só não tinha paciência com o falso sórdido. Alguns botecos assumiam suas privações como uma declaração de falta de princípios. Ele preferia o sórdido inconsciente, o sórdido autêntico. Principalmente, o sórdido pretensioso. Uma vez contara, extasiado, uma cena. Terminara de comer uma inominável almôndega, pedira um palito para o dono do boteco e desencadeara uma busca barulhenta e mal-humorada, com o dono procurando por toda parte e gritando para a mulher:
- Cadê o palito?
Finalmente o dono encontrara o palito atrás da orelha e o oferecera. Ele se emocionava só de contar.
Os amigos, sabendo da sua paixão, mantinham-se atentos para botecos sórdidos que pudessem interessá-lo. Muitos ele já conhecia.
- Um que tem uma Virgem Maria pintada num espelho com uma barata esmigalhada de tapa-olho? Vou seguido lá. A cachaça é tão braba que tem bula com contra- indicação.
Outro dia lhe trouxeram a notícia do pior dos botecos. Não era um boteco de quinta categoria. Era um boteco de última categoria. Ficava no limite entre a vida inteligente e a vida orgânica. Ele precisava ir lá verificar. Foi no mesmo dia. Ficou estudando o boteco de longe, antes de se aproximar. Tinha um garoto na porta do boteco. A função do garoto era atacar cachorros sarnentos. Quando passava um cachorro sarnento o garoto o enxotava - para dentro do boteco! 
Ele atravessou a rua na direção do boteco com aquele brilho no olhar que tem o pesquisador no limiar da grande revelação, ou o santo antes do doce martírio.
E tem a história do Nascimento, que um dia quase brigou com o garçom porque chegou na mesa, cumprimentou a turma, sentou, pediu um chope e depois disse:
- E trás aí uns piriris.
- O que? – disse o garçom.
- Uns piriris.
- Não tem.
- Como, não tem?
- “Piriris” que o senhor diz é...
- Por amor de Deus. O nome está dizendo. Piriris.
- Você quer dizer – sugeriu alguém, para acabar com o impasse – uns queijinhos, uns salaminhos...
- Coisas pra beliscar – completou o outro, mais científico.
Mas o Nascimento, emburrado não disse mais nada. O garçom que entendesse como quisesse. O garçom, também emburrado, foi e voltou trazendo o chope e três pires. Com queijinhos, salaminhos e azeitonas. Durante alguns segundos, Nascimento e o garçom se olharam nos olhos. Finalmente o Nascimento deu um tapa na mesa e gritou:
- Você chama isso de piriris?
E o garçom, no mesmo tom:
- Não. Você chama isso de piriris!
Tiveram que acalmar os ânimos dos dois, a gerência trocou o garçom de mesa e o Nascimento ficou lamentando a incapacidade das pessoas de compreender as palavras mais claras. Por exemplo, “flunfa”. Não estava claro o que era flunfa? Todos na mesa se entreolharam. Não, não estava claro o que era flunfa.

- A palavra está dizendo - impacientou-se Nascimento. - Flunfa. Aquela sujeirinha que fica no umbigo. Pelo amor de Deus!

Fonte: 
http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/a-cronica-botecos-de-luis-fernando-verissimo


Assista ao vídeo de Admmauro Gommes 
falando sobre Crônica. 
É só clicar em:

15 de agosto de 2014

O ÊXTASE DO PÁSSARO

Por Marcondes Calazans




Lendo o texto suave da Cida, fui convidado a me interiorizar, a olhar  para dentro de mim e buscar em minhas lembranças o passado de um escritor da nossa região que, como Rubem Alves, também desencantou do atual plano em que nos encontramos e foi levado para as esferas universais da existência incorpórea.

O Ascenso Ferreira (1895-1965)  que bem emblema as frases do Rubem Alves citadas pela Cida, de forma deveras especial, no poema “Minha Escola” publicado no livro Catimbó em 1927. O poema de Ascenso, quando levado ao conhecimento da sociedade da época provocou  comoção em estudantes e professores, quando falou:

 A escola que eu frequentava era cheia de grades como as prisões.
E o meu Mestre, carrancudo como um dicionário;
Complicado como as Matemáticas;
inacessível como Os Lusíadas de Camões! 
                           (Ascenso Ferreira)

Rubem A. Alves (1933 - 2014), por sua vez, pela versatilidade de sua obra, embora, não tão perto de Ascenso no tempo, conseguiu ser convergente ao escrever sobre a escola, muito bem apontado pela eterna educadora Cida.

Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas.
Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do voo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o voo. (Rubem Alves)


Um detalhe em destaque nos versos  de Ascenso e Rubem são duas palavras. O primeiro usa o termo  GRADES, o segundo, GAIOLA que em sua estrutura se fundem, especialmente quando a metáfora revela professores e alunos vítimas das grades curriculares obrigados a adotá-las sem questionar.
Pois sim, amiga Cida, o Rubem, pela vastidão do que escreveu, dando ênfase a vários temas, não devia ter desencantado tão cedo, pelo muito que ainda tinha que nos presentear em tudo o que escrevia.

O psicanalista, o educador, o teólogo, o pedagogo foi levar seu encantamento a outras esferas universais e, guarde uma certeza, ele se encontra em algum beiral no Cosmo, junto com os demais, a receber na fronte, de forma suave, o vento sopro de Deus, recheado de felicidades por tudo que nos deixou escrito, na expectativa de que através de suas obras e de nós, o Planeta Terra pode ser um pouco melhor do que tem sido.

E concluo dizendo que, se o “Voo nasce dentro dos pássaros”, podemos concluir que gaiola, ou grade alguma poderá deter o seu arrebatamento, encantamento, êxtase.




9 de agosto de 2014

SALVE, RICARDO GUERRA!

Por Admmauro Gommes




Ricardo Guerra é um dos maiores talentos pernambucanos escondidos no interior do Estado. Mora em Jaqueira, de onde não pretende sair nunca. Nem depois da vivência. Sua lente fotográfica registra tudo que se passa em sua terra: da benzedeira, passando pelo homem da cobra, até um novo-velho linguajar que apelidou de jaqueirês. A feira livre e os bêbados que protagonizam este encontro festivo, assim como a imagem telúrica da lua nascendo por trás da Serra da Burarema... tudo é motivo de orgulho desse historiador e contador de estórias verídicas e inventadas. Para mim, Jaqueira começa com ele, como disse em um poema do ano passado (JAQUEIRA):                  
       
Jaqueira lembra saudade
de um fruto da boa terra,
que lembra casa de amigo,
que lembra Ricardo Guerra.

Danou-se nega do doce
tanta poesia se encerra
na pena deste poeta
do povo Ricardo Guerra.

Pra mim, o nome Jaqueira
da Burarema, a serra
pode assim ser resumido:
Ricardo Antônio Guerra.


Tive a felicidade de escrever algumas linhas sobre o seu livro Danou-se nega do doce que na sua publicação confirmará todo o encanto de uma gente pernambucana, sob o olhar encantado de um de seus mais felizes filhos.

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O JAQUEIRÊS TRAZ UMA PUREZA LÍMPIDA QUE AS ACADEMIAS COM SUA FORMA CULTA JAMAIS ALCANÇARÃO - Marcondes Calazans 


O literato Ricardo Guerra, que carrega infinita bagagem de historiógrafo, e dos melhores, diga-se de passagem, consegue com suas letras nos reportar ao passado e jogar-nos numa palavra que de tão doída torna-se prazerosa quando vamos ao passado. Essa palavra é a saudade. 

Lendo o linguajar jaqueirês, lembro-me de uma frase de Marcos Bagno, quando fala: “A língua é como um rio que se renova, enquanto a gramática normativa é como a água do igapó, que envelhece, não gera vida nova a não ser que venham as inundações.”

O escritor Ricardo Guerra é essa inundação como um rio que se renova gerando vida nova nas maneiras e formas diferenciadas de falar, fazendo valer na comunicação o que é mágico, e entender o outro independente de normas clássicas.

O jaqueirês traz uma pureza límpida que as academias com sua forma culta jamais alcançarão. “Uma receita de bolo não é um bolo, o molde de um vestido não é um vestido, um mapa-mundi não é o mundo... Também a gramática não é a língua.” (Bagno)

Parabéns, generoso amigo pela grande contribuição para nossa História e para nossa língua. Maravilhosos textos!

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RICARDO GUERRA: UM AMANTE DE JAQUEIRA - Cida Vilas Boas 


O literato, colunista, historiador, professor, fotógrafo, amante de Jaqueira, plantas, animais, Geep, carnaval, festas juninas, e muito mais que ainda não conheço, tem uma especial atenção em conservar tudo que é de sua terra e região. E o faz com tamanho amor que eu, mesmo de longe, aprecio tudo que diz a respeito de Mata Sul.

Penso que não existe escritor na face desta terra que dê tal valor para aquilo que é seu. Desculpa essa frase, mas acho que Ricardo Guerra já é dono, tomou posse dessa região, de sua gente, seu legado histórico, de seus usos e costumes. É um verdadeiro ícone, nosso querido Guerra que não faz guerra, mas faz histórias.

Indiscutivelmente, Ricardo é um símbolo, um identificador dessa Região rica em poetas, escritores, façanhas heroicas de defensores de sua terra. 

Gostei muito, meu caro amigo, de sua "escrivinhação" intitulado Onomatopeia pela sequência de termos que me retorna a uma infância longínqua, mas mentalmente bem preservada visto que por aqui, desde que me conheço por gente, é recheada de simpáticos e alegres nordestinos.

Estou familiarizada com esse gostoso e sonoro sotaque. Que Deus abençoe a você, Ricardo Guerra. Que lhe conserve essa mente criativa e amorosa e continue a nos presentear com essa presença escrita em versos e em prosa pois que seu jeito de ver "Suas" coisas é, no mínimo, muito peculiar, engenhosa, travessa, farta em detalhes e abençoada.

Espero outras onomatopeias, e outros nhe-nhe-nhes de redes balançando.


Obrigada por seu dom tão bem explorado e que traz aos nossos sentidos uma visão ornamentada desse pedaço de MUNDO.

Dedé, RG, AG e VCA

Agradecimentos
FINALMENTANDO A ESCRIVINHAÇÃO
– Ricardo Guerra
Caros literatos Admmauro Gommes, Marcondes Calazans e Cida Vilas Boas. De antemão, agradeço os elogios generosos de todos vocês a mim dispensados. Ao poeta, professor, literato e amigo Admmauro Gommes devo-lhe dizer, caro Mestre, que realmente eu sou um “humilde escrevinhador” das coisas da minha terra, da minha região, do meu país. Faço isto por acreditar piamente que não existe uma Literatura Universal e muito menos Regional, nunca houve e nunca haverá, por um simples motivo: a Literatura nasce local, se ela se torna regional ou universal não mais está no controle do autor mas de outrem.
É muito prazeroso escrever sobre o que se conhece e, mais ainda, quando se conhece e se viveu o que escreveu, pois entendo e pratico que conhecer as histórias do seu povo é de fundamental importância para o historiador adicto, todavia, sem analisá-las com criticidade é preferível ficar no limbo da ignorância absoluta perante esta história, posto que a verdadeira essência e a ciência da disciplina estão embutidas em sua analogia com os dias atuais. Porque é impossível compreender o presente separando-o das condições criadas pelo passado. Afinal, tive o privilégio de tê-lo como meu professor de Literatura Brasileira.
Ao amigo e sábio historiógrafo e professor Marcondes Calazans, entendo e concordo contigo e com Câmara Cascudo quando este afirma: 
Queria saber a história de todas as cousas do campo e da cidade. Convivência dos humildes, sábios, analfabetos, sabedores dos segredos do Mar, das Estrelas, dos Morros Silenciosos. Assombrações, Mistérios. Jamais abandonei o caminho que leva ao encantamento do passado. Pesquisas. Indagações. Confidências que hoje não têm preço”. 
Todavia, não abdicarei nunca de mesclar a língua brasiliana com o meu jaqueirês, tendo em vista ser esta a minha coluna mestra, diria, a viga mestra da cumeeira da casa dos meus pequenos escritos. Com sua peculiar sapiência estás correto, caro amigo, ao citar Bagno “A língua é como um rio que se renova, enquanto a gramática normativa é como a água do igapó, que envelhece, não gera vida nova a não ser que venham as inundações.” O jaqueirês é como este rio, vivinho e se bulindo o danado.
A escritora, literata e poetisa Cida Vilas Boas, como toda poetisa, enxerga o mundo através dos olhos de uma criança e com sua percepção inerente apenas aos poetas tem toda razão quando afirma que: “... Ricardo tem uma especial atenção em conservar tudo que é de sua terra e região. E o faz com tamanho amor que eu, mesmo de longe, aprecio tudo que diz a respeito de Mata Sul”. Realmente, escrevo com amor e por amor a minha terra e grande respeito por seus habitantes.
“Finalmentando a escrivinhação,” reitero humildemente os agradecimentos às palavras elogiosas proferidas por vocês a este matuto. Desses que mesmo quando sai de dentro do mato, o mato nunca sai de dentro dele.
Isto só me incentiva em continuar.
Muito obrigado a todos.
Da minha bucólica e aprazível Jaqueira, adentrando o mês do agosto do ano que nos engana.